Produção nos principais centros industriais continua em queda

Divulgação
BNDES dirigiu os financiamentos mais vultosos às multinacionais

Em relação a maio de 2011, produção industrial recua -6,9% em SP, -5,1% no RJ e -2,1% em MG

Os resultados - principalmente da indústria de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais – que o IBGE divulgou sobre a produção industrial regional na sexta-feira, são péssimos. Porém, só surpreenderam uma espécie de pessoa: os “analistas de mercado”, que, segundo o boletim Conjuntura Macroeconômica Semanal, publicado pelo Bradesco, erraram, na mediana de suas previsões, pela décima vez consecutiva, sempre por subestimar a gravidade da situação.

Em dezembro, numa entrevista, o professor Yoshiaki Nakano, depois de exemplificar como o Brasil cresceu nas crises anteriores dos países centrais, disse:

“... o Brasil foi bem nos momentos de crise. (…) o que é preciso fazer nos momentos de crise? O Brasil precisa pensar com a própria cabeça e olhar para dentro. Aí você vai descobrir que tem potencial de crescimento, problemas que precisam ser resolvidos, e deixa de olhar para uma miragem. Aquilo em que eles acreditam e desenvolvem vale para eles, não para nós. (…) você vai ter de pensar com a própria cabeça. Essa é a grande mudança que permitiu ao Brasil avançar. (…) Porque o dinamismo não vai mais vir de fora, tem de ser aqui de dentro. (…) Então, na verdade, essa crise (…) abre espaço para você pensar o País. (…) Se você paga um salário maior, o mercado é maior, então surgem novas oportunidades de crescimento. (…) O nosso problema não é inovação, é gerar demanda. (…) não há razão para a economia brasileira não voltar a crescer 7%”.

Porém, a mediocridade que impera na área econômica do governo, acha que é inconceível pensar independentemente dos monopólios financeiros dos países centrais, mesmo quando eles estão falidos.

Uma política econômica medíocre somente pode conduzir, no melhor dos casos, a resultados econômicos medíocres. Mas pode ser pior. Vejamos, em relação ao mesmo mês do ano anterior, os resultados da produção industrial de São Paulo – Estado em que é produzido 38% do valor da produção do país, com 36% das vendas industriais, 31% das fábricas e 35% dos trabalhadores ocupados da indústria:

Set./2011: -3,2%; out./2011: -2,4%; nov./2011: -4,8%; dez./2011: -3,3%; jan./2012: -5,2%; fev./2012: -6,2%; mar./2012: -5,2%; abr./2012: -4,4%; mai/2012: -6,9%.

No ano (janeiro-maio), a produção industrial de São Paulo já caiu -5,6%, a do Rio de Janeiro, -7,1% e a de Minas, -1,4%, e estes são os três Estados onde é produzido 57% do valor da produção industrial do país, onde estão 51,42% dos trabalhadores empregados pela indústria e quase metade das fábricas do Brasil (mais exatamente, segundo o IBGE, 48% das fábricas).

Os vândalos foram muito difamados. Nenhum deles, ou tribo deles, fez ou conseguiu fazer com que setores inteiros de cadeias produtivas desaparecessem debaixo de aumentos de juros sucessivos, e, por consequência, sob um câmbio que subsidiava importações à rodo.

Nem vândalos nem hunos promoveram uma liquidação de bens nacionais como a invasão do “investimento direto estrangeiro” (IDE) – a compra em massa de empresas nacionais por dinheiro externo.

Mantega obstruiu os investimentos públicos, os gastos públicos e os financiamentos públicos. Para dar uma ajuda – afinal, quem sabe o cargo que estará vago amanhã? - o sr. Luciano Coutinho, no BNDES, dirigiu os financiamentos mais vultosos para as multinacionais. Agora, o sr. Coutinho fala nos males do câmbio e que os setores que desapareceram levarão cinco anos para que sejam reconstruídos. Naturalmente, esqueceu que colaborou com essa destruição – e que, se depender da política atual do BNDES, jamais eles serão reconstruídos.

Seria um caso além de paranormal um país que pudesse crescer, se desenvolver não apenas sem indústria e sem empresas nacionais, mas doando o capital nacional para empresas de outros países. Mas é exatamente essa a política econômica atual: pelo incentivo desbragado à compra de empresas nacionais por multinacionais, pelos financiamentos públicos com que essas multinacionais se locupletam, pelas “desonerações” que aumentam sua margem de lucro à custa do Estado – e dos aposentados.

Aliás, é peculiar que o sr. Mantega grite contra o fim do fator previdenciário - pois iria, segundo ele, quebrar a Previdência - e ao mesmo tempo faça doações da Previdência para multinacionais, pois não é outra coisa a sua “desoneração da folha de pagamento”.

Várias vezes se proclamou a importância do mercado interno. Ao mesmo tempo, deflagrou-se um arrocho salarial – isto é, um achatamento do mercado interno. Obviamente, crédito sem aumento do salário real é apenas endividamento da população, e tem um fôlego muito curto.

No momento, as previsões para o crescimento em 2012 oscilam entre 1,5% e 2,01%. Para a produção industrial, vão de -1,5% a -0,5%. Porém, previsões são previsões – que significam algo não sobre o futuro, mas sobre o presente.

Por fim: apesar da queda na taxa básica (Selic), segundo o último relatório do Banco Central sobre política monetária, os juros dos bancos nos empréstimos às empresas caíram muito pouco: em maio, sua taxa média anual era 25%, o que significa que caíram apenas 3,2 pontos percentuais (p.p.) em relação a dezembro e 5 p.p. em relação a setembro – caíram até menos, em pontos percentuais, que os empréstimos para pessoas, que em maio estavam a uma taxa (média) de 38,8% (!), depois de descer 5 p.p. em relação a dezembro e 6,9 p.p. em relação a setembro (cf. BC, Relatório de Política Monetária e Operações de Crédito do Sistema Financeiro, Quadro XLI, 26/06/2012).

Em período ainda mais recente, de 21/06/2012 a 27/06/2012, as taxas de juros nos descontos de duplicatas – uma operação comum para qualquer empresário – estavam, ao ano, em 29,8% (CEF), 35,12% (Safra), 35,60% (Santander), 36,39% (HSBC), 39,13% (Itaú Unibanco), 45,26% (Bradesco) – e havia bancos cobrando acima de 70% (cf. BC, Taxas de juros de operações de crédito, 10/07/2012).

Os famigerados “spreads” (diferença entre a taxa que o banco paga aos aplicadores e a taxa que cobra dos que tomam empréstimos) caíram pouquíssimo: em média, caíram minúsculos 1,1 p.p. no ano, para os empréstimos às empresas (cf. BC, Relatório de Política Monetária, idem).

Como isso é possível, se os juros básicos, que remuneram boa parte dos títulos públicos, em termos reais caíram consideravelmente, ainda que vagarosamente, desde agosto do ano passado, supostamente tirando dos bancos uma fonte que lhes permitia manter juros escalafobéticos aos clientes, pois, na verdade, não precisavam – como não precisam - emprestar a empresas e pessoas para ganhar dinheiro?

Em suma, a Selic diminuiu, mas as transferências de dinheiro público aos bancos diminuíram muito pouco – evidentemente, o governo também paga quando o indexador do título não é a Selic.

A taxa média nominal de juros sobre a dívida pública (“taxa de juros implícita”), paga pelo governo nos últimos 12 meses, foi 16,3% a.a. (cf. BC, Relatório de Política Fiscal, Quadro XIV, 29/06/2012).

O Relatório Mensal da Dívida Pública Federal, publicado pelo Tesouro Nacional no dia 25, é até mais explícito. Pela tabela “Custo médio mensal da DPF [Dívida Pública Federal]”, sabe-se que esse custo é 16,52% ao ano. Esse é o “custo” da dívida total. Quanto ao “custo” da dívida interna em títulos, em maio subiu para 12,16% a.a.; em janeiro, estava em 11,56%.

A Selic está em 8,5% a.a., mas o governo, que emitiu pouquíssimos títulos indexados à Selic este ano, pagou, em maio, pelos seus papéis, 12,16% a.a. (como diria o outro, “com viés de subida”) – o que quer dizer que os títulos indexados pela Selic estão sendo substituídos por outros, com juros maiores.

Assim, não há banco que diminua o “spread”.

Fonte: Carlos Lopes/Hora do Povo